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Quem processa de verdade o texto que você manda à IA

A Anthropic afirma que duas concorrentes repassavam pedidos dos próprios clientes ao Claude, sem avisar. O risco para a sua empresa é contratual.

12 de setembro de 2026 · Agência Primeira Página

Quem processa de verdade o texto que você manda à IA

Você contrata uma ferramenta de inteligência artificial, digita o seu texto e recebe a resposta. A pergunta que quase ninguém faz é: qual modelo leu isso?

Em 10 de setembro a Anthropic publicou um relatório de ameaças de 154 páginas em que afirma ter encontrado duas empresas concorrentes encaminhando pedidos dos próprios clientes para o Claude, sem avisar esses clientes, e devolvendo a resposta como se fosse do modelo delas.

Para quem só quer trabalhar, isso não é briga entre laboratórios. É uma pergunta contratual que ficou sem resposta.

O que o relatório afirma

O documento nomeia cinco empresas chinesas e soma perto de 200 milhões de interações ligadas ao que a Anthropic chama de destilação ilícita: usar a saída de um modelo para treinar outro sem autorização.

  • Alibaba: mais de 151 milhões de interações com o Claude entre maio e julho de 2026, com pico perto de 3 milhões por dia, distribuídas em mais de 3.500 contas que a Anthropic classificou como fraudulentas. É a maior campanha do tipo que a empresa diz já ter medido.
  • Moonshot AI: cerca de 300 mil pedidos de usuários do assistente Kimi encaminhados ao Claude em um período de dez dias, por meio de 5.380 contas fraudulentas, com a resposta apresentada ao usuário como se tivesse saído do Kimi.
  • DeepSeek: a mesma tática, com mais de 12 milhões de casos observados em catorze dias de julho de 2026, sem notificar os clientes.
  • Xiaomi e Zhipu também aparecem no relatório, com volumes menores.

A parte que atinge quem só estava trabalhando

O detalhe que muda o assunto de lugar é este: parte dos pedidos encaminhados continha informação sensível, e a Anthropic afirma não saber se a Moonshot avisou os clientes de que o texto deles estava sendo enviado para fora.

Traduzindo para a mesa de quem assina contrato: uma empresa pagou pela ferramenta A, escreveu o que precisava escrever, e o texto foi processado pela empresa B, em outro país, sob outros termos de uso, sem que ninguém tivesse combinado isso. O cliente não fez nada errado e não tinha como perceber.

É a versão concreta da dúvida que levantamos em rascunho no chat de IA: quem mais pode ver. Antes a pergunta era o que o fornecedor faz com o seu texto. Agora ela vem antes: quem é o fornecedor de fato.

Na LGPD, o problema não fica só com o fornecedor

Quando a sua empresa decide o que fazer com os dados de clientes, ela é a controladora. A ferramenta que processa em nome dela é a operadora. E a lei é direta em dois pontos.

O artigo 39 diz que o operador trata os dados segundo as instruções fornecidas pelo controlador. O artigo 42 diz que controlador e operador respondem pelo dano causado no tratamento. Ou seja: um repasse que você nunca autorizou não é apenas um descumprimento de contrato do seu fornecedor — é uma exposição sua, diante do seu próprio cliente, com o seu nome no contrato que ele assinou.

Vale a mesma lógica do que escrevemos sobre a multa do TikTok: a autoridade cobra de quem tem a relação com o titular, não de quem está três camadas atrás na cadeia técnica.

O que exigir por escrito antes de assinar

Nenhum destes cinco pedidos é exótico, e fornecedor sério responde sem hesitar. Se houver rodeio na resposta, já é informação.

  1. Qual modelo processa, de qual empresa, e em qual país. Nome e versão. "Nosso modelo proprietário" não é resposta.
  2. Existe subcontratado? Se existir, quer a lista e o compromisso de avisar antes de mudar. Troca silenciosa de subcontratado é exatamente o caso do relatório.
  3. O meu conteúdo entra em treinamento? Quer a cláusula que diz que não, e quer saber se dá para desligar por conta.
  4. Por quanto tempo o histórico fica guardado, e onde. Retenção com prazo e região, não "conforme a política".
  5. O que acontece com os meus dados no fim do contrato. Prazo de exclusão e comprovação.

Quem já pensou em sair da corrente de fornecedores encontra o raciocínio de custo em quanto custa rodar um modelo aberto na sua empresa. Não é para todo mundo, mas rodar o modelo dentro de casa resolve a pergunta de quem processa de uma vez.

O outro lado, que é obrigatório dizer

Duas ressalvas honestas. A primeira: quem fez as acusações é uma concorrente direta das empresas acusadas, o que não invalida os números, mas coloca a fonte como parte interessada. A segunda: o Ministério do Comércio da China rejeitou o relatório, afirmou que não há base factual nem legal para a acusação de destilação em escala industrial, chamou o episódio de tentativa de conter a indústria chinesa de inteligência artificial e falou em contramedidas.

Nada disso foi julgado em nenhum tribunal, e as empresas nomeadas não confirmaram a prática. O que sustenta a decisão de hoje não depende de quem tem razão: se você não sabe por escrito qual modelo processa o seu texto, você tem um problema de contrato, independentemente deste caso.

Montar atendimento e automação com essas respostas definidas antes é parte do trabalho em chatbot com inteligência artificial.

Fontes

Relatório de inteligência de ameaças da Anthropic publicado em 10 de setembro de 2026, com 154 páginas, e as coberturas de TechCrunch, CNBC e South China Morning Post entre 10 e 12 de setembro. A reação do Ministério do Comércio da China foi noticiada pelo South China Morning Post. Os artigos 39 e 42 são da Lei Geral de Proteção de Dados, nº 13.709 de 2018.

Perguntas frequentes

O que é destilação de modelo de inteligência artificial?

É usar as respostas de um modelo para treinar outro. A empresa envia milhões de perguntas ao modelo alheio, guarda as respostas e treina o próprio sistema com esse material, chegando a um resultado parecido sem pagar o custo de pesquisa. Quando isso é feito sem autorização e por contas fraudulentas, o setor chama de destilação ilícita.

Como saber se o meu fornecedor de IA repassa os meus dados para outro modelo?

Pergunte por escrito qual modelo processa as requisições, de qual empresa e em qual país, e se existem subcontratados na cadeia. Peça também o compromisso de comunicar qualquer troca de subcontratado antes que ela aconteça. Fornecedor que responde com \u0022nosso modelo proprietário\u0022 e não detalha a cadeia está deixando a pergunta aberta.

Se o fornecedor repassa sem avisar, a culpa é dele ou da minha empresa?

Perante o seu cliente, a responsabilidade é sua também. Na LGPD, o operador deve tratar os dados segundo as instruções do controlador, e o artigo 42 coloca controlador e operador como responsáveis pela reparação do dano. Você pode depois cobrar do fornecedor no contrato, mas quem tem a relação com o titular dos dados é a sua empresa.

Usar ferramenta de IA estrangeira deixou de ser seguro?

Não é uma questão de país de origem, e sim de contrato verificável. O que o caso mostra é que a cadeia pode ter uma camada que o cliente não conhece. Ferramenta com contrato claro sobre modelo, subcontratados, treinamento e retenção continua utilizável; o que não dá é assinar sem essas respostas.

Rodar um modelo aberto dentro da empresa resolve o problema?

Resolve a pergunta de quem processa, porque o processamento fica na sua infraestrutura, mas cria custo de máquina, de operação e de atualização. Faz sentido quando o volume é alto e constante ou quando o dado é sensível o suficiente para justificar a conta. Para uso pequeno e variável, contrato bem escrito costuma sair mais barato.

As empresas acusadas confirmaram a prática?

Não. As empresas nomeadas não confirmaram, nada foi julgado, e o Ministério do Comércio da China rejeitou o relatório, afirmando que não há base factual nem legal para a acusação e classificando o episódio como tentativa de conter a indústria chinesa de inteligência artificial. A acusação partiu de uma concorrente direta, o que exige cautela na leitura.