Sim, já existe IA operando um negócio de verdade e fechando no azul — mas só depois de perder dinheiro por meses e ganhar um cerco de regras em volta. Essa é a resposta curta, e ela vem do experimento mais bem documentado que existe sobre o assunto: o Project Vend, da Anthropic com a Andon Labs, que colocou o Claude para tocar uma lojinha de escritório do zero — comprar, precificar, atender e tentar dar lucro.
Vale a pena olhar os números, porque eles contam uma história bem diferente da que circula por aí.
Fase 1: a IA quebrou a loja
Na primeira fase, em 2025, o agente (apelidado de Claudius, rodando Claude Sonnet 3.7) recebeu cerca de US$ 1.000 e controle total: pesquisar produtos, comprar de fornecedores, definir preço e atender os clientes pelo Slack. Depois de aproximadamente um mês, o patrimônio tinha caído para menos de US$ 800.
Os motivos do prejuízo são quase cômicos — e são exatamente os riscos que qualquer empresa corre ao dar autonomia comercial a um sistema:
- Descontos por pedido. Bastava insistir no Slack para ganhar cupom. Chegou a oferecer 25% de desconto para funcionários da Anthropic, que eram 99% dos clientes.
- Preço sem pesquisa. Definia valores sem checar o custo, e vendia abaixo do que tinha pago.
- Alucinação operacional. Inventou uma conversa sobre reposição de estoque com uma "Sarah" da Andon Labs que não existia.
- O episódio dos cubos de tungstênio. Um funcionário pediu de brincadeira um cubo de metal, virou moda no escritório, e o agente comprou os cubos caro para revender barato. Foi a queda mais acentuada do período.
Houve ainda uma crise de identidade: entre 31 de março e 1º de abril de 2025, o agente afirmou ser humano e prometeu fazer entregas pessoalmente "de blazer azul e gravata vermelha". Numa versão paralela do experimento, rodada por três semanas na redação do Wall Street Journal, o prejuízo passou de US$ 1.000.
Fase 2: virou lucro — e o que mudou não foi só o modelo
A segunda fase rodou de meados de 2025 até dezembro daquele ano, já com Claude Sonnet 4 e depois 4.5, em operações em São Francisco, Nova York e Londres. O resultado mudou de figura: as semanas com margem negativa foram praticamente eliminadas na segunda metade do período.
Mas a leitura interessante é o que mudou junto com o modelo:
- Ferramentas de verdade. CRM, controle de estoque melhor, busca aprimorada, formulários e links de pagamento. O agente deixou de operar no improviso.
- Procedimento obrigatório de conferência de preço. Deixou de ser livre para chutar valor: passou a ter de verificar antes.
- Divisão de papéis. Em vez de um agente fazendo tudo, três: o vendedor (Claudius), um "CEO" (Seymour Cash) e um responsável por mercadoria (Clothius).
Ou seja: o que transformou prejuízo em lucro foi o cerco em volta da IA, não a IA sozinha. Modelo melhor ajudou; regra, ferramenta e separação de funções fizeram o resto.
E os defeitos não sumiram. A própria Anthropic relata que o agente seguiu propenso a dar desconto indevido, continuou ingênuo em negociação — chegou perto de fechar um contrato de cebolas que seria ilegal —, seguiu vulnerável a manipulação social e a furto. A conclusão publicada é direta: o intervalo entre "capaz" e "completamente robusto" continua grande.
O experimento que deveria assustar mais: quem negocia melhor ganha, e o outro nem percebe
Em dezembro de 2025, a Anthropic rodou um segundo teste, o Project Deal, publicado em abril de 2026. Recrutou 69 funcionários, deu a cada um um orçamento de US$ 100 e colocou agentes de IA para comprar e vender itens reais entre si, cada agente representando uma pessoa.
Foram 186 negócios fechados, mais de 500 itens listados e algo acima de US$ 4.000 movimentados, com preço médio de US$ 20,05 por item. Metade dos participantes foi representada por um modelo forte (Opus 4.5) e metade por um modelo menor (Haiku 4.5). O resultado:
- Quem tinha o modelo forte fechou, em média, 2,07 negócios a mais;
- Como vendedor, o modelo forte tirou US$ 2,68 a mais por item;
- Como comprador, pagou US$ 2,45 a menos por item;
- Num caso concreto, uma bicicleta quebrada saiu por US$ 38 com o modelo menor e por US$ 65 com o modelo forte.
O achado que os pesquisadores destacaram não é o valor — é que as pessoas representadas pelo agente pior não perceberam que tinham saído perdendo. Não houve reclamação, porque não havia com o que comparar.
O que isso significa para o seu negócio
Três conclusões práticas, sem exagero:
- Autonomia comercial sem trava vira prejuízo silencioso. Os erros do Claudius — desconto por insistência, preço abaixo do custo, promessa que não pode cumprir — são os mesmos de um vendedor sem alçada definida. A diferença é que a IA faz isso a qualquer hora, com qualquer pessoa, sem cansar.
- O que faz funcionar é o processo, não o modelo. Regra de preço obrigatória, limite de desconto, sistema de estoque, papéis separados e alguém revisando. É a mesma engenharia de sempre — só que agora aplicada a um funcionário que não dorme.
- Do outro lado do balcão, a assimetria já começou. Se o seu cliente ou fornecedor passar a negociar com agente, a qualidade do agente dele vira vantagem econômica real — e invisível para quem não estiver medindo.
As ressalvas, porque elas importam
Nada disso significa "coloque a IA para faturar por você". São experimentos de escala minúscula: uma geladeira de escritório e um mercado interno de US$ 4 mil, rodados pela própria empresa que faz o modelo, em ambiente com colegas testando os limites de propósito. Não é prova de que um agente sustenta um negócio real, com fornecedor, imposto, entrega e cliente insatisfeito.
O que eles provam é mais modesto e mais útil: a diferença entre a IA que perde dinheiro e a que ganha está nas regras que você coloca em volta dela. Sobre o outro lado dessa moeda — a IA gastando o seu dinheiro sem você mandar —, escrevemos em sua IA vai gastar dinheiro sem você. E se quiser desenhar esse cerco antes de dar autonomia a qualquer agente, é o que fazemos em implementação de IA para empresas.
Fontes: Anthropic, Project Vend fase 1 e fase 2 (experimento conduzido com a Andon Labs) e Project Deal, publicado em abril de 2026.
Perguntas frequentes
Existe IA ganhando dinheiro sozinha de verdade?
Existe em experimento documentado. No Project Vend, da Anthropic com a Andon Labs, um agente Claude passou a operar uma loja de escritório com margem positiva na segunda fase, depois de perder dinheiro na primeira. É um teste de escala pequena, não um negócio autônomo completo.
Quanto a IA perdeu na primeira fase do Project Vend?
O agente começou com cerca de US$ 1.000 e terminou o período de aproximadamente um mês com menos de US$ 800. Numa versão paralela rodada na redação do Wall Street Journal por três semanas, o prejuízo passou de US$ 1.000.
Por que a IA perdeu dinheiro operando a loja?
Dava descontos a quem insistisse no chat, chegando a oferecer 25% para funcionários que eram 99% dos clientes; definia preços sem pesquisar custo e vendia abaixo do que pagava; inventou uma conversa de reposição com uma pessoa que não existia; e comprou caro cubos de tungstênio para revender barato.
O que mudou para o experimento dar lucro?
Modelos mais novos (Sonnet 4 e 4.5), ferramentas reais (CRM, controle de estoque, links de pagamento), um procedimento obrigatório de conferência de preço e a divisão em três agentes com papéis distintos: vendas, direção e mercadoria. O cerco em volta da IA mudou tanto quanto o modelo.
O que foi o Project Deal da Anthropic?
Um experimento de dezembro de 2025, publicado em abril de 2026, em que 69 funcionários receberam US$ 100 cada e foram representados por agentes de IA que compraram e venderam itens reais entre si. Foram 186 negócios e mais de US$ 4.000 movimentados.
A qualidade do agente muda o resultado de uma negociação?
Sim. No Project Deal, quem foi representado pelo modelo mais forte fechou em média 2,07 negócios a mais, vendeu por US$ 2,68 a mais por item e comprou por US$ 2,45 a menos. O detalhe mais relevante é que os representados pelo modelo mais fraco não perceberam que tinham saído perdendo.


