Na primeira semana de setembro de 2026, as duas maiores redes escolares dos Estados Unidos bloquearam o uso de inteligência artificial generativa pelos alunos. Nova York suspendeu até o 8º ano. Los Angeles bloqueou para todos, nos aparelhos da rede.
No dia anterior, no Brasil, o Conselho Nacional de Educação aprovou as regras nacionais para IA na educação — e elas seguem a lógica contrária.
O que Nova York proibiu, exatamente
A maior rede escolar do país instituiu uma moratória de um ano, válida no ano letivo 2026-2027, sobre IA generativa voltada ao aluno, do maternal ao 8º ano. Atinge cerca de 600 mil estudantes, aproximadamente dois terços da matrícula da rede.
Os detalhes que importam mais que a manchete:
- Mais de 38 programas já aprovados terão os componentes de IA desligados ou descontinuados, por não atenderem aos novos critérios de segurança e supervisão. Ou seja, a rede não bloqueou só o acesso a ferramentas conhecidas: revisou o que já estava dentro da sala.
- Chatbot de companhia fica proibido em todas as séries, inclusive no ensino médio. É a única proibição que não tem prazo nem faixa etária.
- No ensino médio, em vez de proibir, a rede criou módulos de pensamento crítico sobre IA duas vezes por ano, pilotos limitados em poucas turmas e limites de tempo de tela por idade.
A medida foi anunciada pelo prefeito Zohran Mamdani com o chanceler de educação, e a própria rede a descreve como a mais ampla do país.
Los Angeles chegou perto por outro caminho
Na segunda maior rede, o bloqueio veio como efeito de uma política nova de tempo de tela: desde o início do ano letivo 2026-2027, nenhum aluno tem acesso a IA generativa nos aparelhos da rede, enquanto o distrito revisa uso pedagógico e salvaguardas.
É uma reversão. Antes, aluno com 13 anos ou mais podia usar ferramentas aprovadas depois de fazer um curso de cidadania digital e aceitar a política de uso responsável.
E o conselho da rede admitiu as duas limitações do próprio bloqueio: ele vale só para aparelho da rede, porque o distrito não consegue regular o celular pessoal do aluno; e um conselheiro disse abertamente que a medida foi mal divulgada.
O Brasil foi na direção oposta: classificar em vez de proibir
Em 1º de setembro de 2026, o Conselho Nacional de Educação aprovou as diretrizes de uso de IA em escolas e universidades brasileiras. O texto segue para homologação do MEC, e as instituições terão até 12 meses para se adaptar depois disso.
A escolha estrutural é diferente da americana: em vez de proibir ferramentas, o texto classifica usos em quatro níveis de risco.
- Risco baixo: apoio administrativo, acessibilidade, revisão de texto sem finalidade avaliativa.
- Risco moderado: sistemas de tutoria e devolutiva formativa — exigem supervisão humana.
- Risco alto: correção automatizada com consequência acadêmica e prova monitorada por biometria — exigem supervisão contínua.
- Risco excessivo: pontuação social, vigilância emocional e decisão totalmente automatizada de aprovação ou desligamento. Não é permitido.
Também ficam vedados o compartilhamento de dado identificável de aluno com sistema externo, a análise biométrica e o perfil emocional de menores, e o uso de tela na educação infantil. A frase do relator Celso Niskier resume o eixo do texto: “o juízo avaliativo é do professor, ele não pode ser substituído pela IA”.
O que a sua escola precisa ter pronto
Diferente de uma proibição, uma norma por risco cria obrigação de documento. Pelo texto aprovado, a instituição precisa estabelecer:
- Política interna de IA, dizendo o que é permitido, por quem e em qual série.
- Avaliação de impacto algorítmico dos sistemas que usa.
- Procedimento de supervisão humana, com nome de responsável, não só a menção genérica de que existe um professor na sala.
- Mecanismo de revisão de decisão automatizada, para quando a máquina reprovar, sinalizar ou classificar um aluno.
- Consentimento informado dos pais, específico para o uso de IA.
- Participação da comunidade escolar na construção dessas regras.
O trabalho real não é escolher entre liberar ou bloquear o ChatGPT. É conseguir responder, por escrito, quais sistemas tocam dado de aluno, o que cada um decide sozinho e quem revisa essa decisão. Boa parte das escolas não sabe nem quantos sistemas com IA já estão dentro da rotina — foi exatamente isso que Nova York descobriu ao encontrar 38 programas fora do próprio critério.
A parte que nenhuma regra resolve
O conselho de Los Angeles disse em público o que todo diretor sabe: bloqueio no aparelho da escola não impede o uso no celular do aluno. Proibir na rede desloca o uso para onde ninguém vê, e sem orientação nenhuma.
Sobra a parte difícil, que é pedagógica e não técnica: mudar o que se pede ao aluno. Enquanto a tarefa for produzir um texto que a máquina produz em segundos, a discussão sobre proibir é secundária. Avaliação que pede processo, defesa oral, aplicação a um caso local ou justificativa da própria escolha continua funcionando — com IA disponível ou sem.
É essa conversa, a de decidir o que a tecnologia entra fazendo dentro da escola, que tratamos em Escola 3.0. Sobre escolher equipamento sem comprar o que não se usa, veja lousa digital para escola: como escolher. E sobre o que as famílias realmente pesquisam antes de escolher uma escola, captação de alunos.
Fontes
Comunicado da prefeitura de Nova York sobre a moratória e cobertura de CNN, ABC7 e The Hill; cobertura da NBC Los Angeles e do GovTech sobre a decisão do distrito de Los Angeles; e a aprovação das diretrizes de IA na educação pelo Conselho Nacional de Educação em 1º de setembro de 2026, ainda pendente de homologação pelo MEC.
Perguntas frequentes
Nova York proibiu inteligência artificial nas escolas?
Instituiu uma moratória de um ano, no ano letivo 2026-2027, sobre IA generativa voltada ao aluno, do maternal ao 8º ano. Atinge cerca de 600 mil estudantes, dois terços da rede. No ensino médio não há proibição geral: há módulos de pensamento crítico sobre IA duas vezes por ano e pilotos limitados. Chatbot de companhia fica proibido em todas as séries.
O que Los Angeles decidiu sobre IA para alunos?
Desde o início do ano letivo 2026-2027, nenhum aluno tem acesso a IA generativa nos aparelhos fornecidos pela rede, enquanto o distrito revisa o uso pedagógico e as salvaguardas. Antes, alunos de 13 anos ou mais podiam usar ferramentas aprovadas após um curso de cidadania digital. O próprio conselho reconheceu que a medida não alcança o celular pessoal do aluno.
Existem regras para uso de IA nas escolas brasileiras?
Sim. Em 1º de setembro de 2026 o Conselho Nacional de Educação aprovou diretrizes para o uso de IA em escolas e universidades. O texto segue para homologação do MEC, e as instituições terão até 12 meses para se adaptar depois disso. A lógica é classificar usos por risco, e não proibir ferramentas.
Quais usos de IA são proibidos nas escolas brasileiras?
Os classificados como risco excessivo: pontuação social, vigilância emocional e decisão totalmente automatizada de aprovação ou desligamento de aluno. Também ficam vedados o compartilhamento de dado identificável de aluno com sistema externo, a análise biométrica e o perfil emocional de menores, e o uso de tela na educação infantil.
O que uma escola precisa ter para se adequar às diretrizes de IA?
Seis itens: política interna de IA, avaliação de impacto algorítmico dos sistemas usados, procedimento de supervisão humana com responsável definido, mecanismo de revisão de decisão automatizada, consentimento informado dos pais específico para IA, e participação da comunidade escolar na construção das regras.
Adianta bloquear a IA na rede da escola?
Bloqueio no aparelho da escola não alcança o celular pessoal do aluno, como o próprio conselho de Los Angeles reconheceu. Ele desloca o uso para onde ninguém acompanha. O que continua funcionando é mudar o que se pede na avaliação: processo, defesa oral, aplicação a um caso local e justificativa da escolha resistem à presença da IA.


